JORNADAS DE PROTESTOS NO CHILE - SANTIAGO

    O aviso sobre o aumento de 30 pesos na tarifa do metrô, em Santiago do Chile, foi o estopim para dezenas de 'catracaços' estudantis (forma de protesto onde se pula as catracas dos transportes e não se paga a passagem). Em cerca de duas semanas, os 'catracaços' tornaram-se manifestações massivas com confrontos violentos, fortíssima repressão por parte do Estado, depredações, incêndios e saques. Na noite de sexta-feira (18/10/2019), o caos tomou conta e tudo saiu de controle. Foi nessa fatídica sexta-feira que cheguei a Santiago, após um mochilão pela Argentina. O presidente, Sebastian Piñera, decretou estado de emergência e, pela primeira vez, desde o fim da ditadura militar chilena (1973-1990), colocou o Exército nas ruas e declarou toque de recolher. Isso foi a gota d'água. A insatisfação do povo extravasou a capital e se mostrou nacional. O modelo neoliberal, que vem sendo implantado há décadas no país, falhou miseravelmente. O Chile inteiro foi às ruas.

     Logo nos primeiros dias, a população trouxe diversas pautas como: revogação do aumento da passagem; retirada do exército das ruas; renúncia do presidente e de seu Ministro do Interior e de Segurança Pública, Andrés Chadwick; o fim do modelo escolar promulgado pelo governo do ditador Augusto Pinochet; uma nova constituição que realmente garanta os direitos e atenda às necessidades do povo chileno, uma constituição do povo para o povo (a atual também foi criada pelo governo de Pinochet); o fim da AFP ("Associación de Fondo de Pensiones", previdência que funciona através de sistema de capitalização) e a reestatização da água (o Chile é o único país no mundo onde a água é um bem privado), entre outras mudanças estruturais de cunho social e ambiental.

    Faz pouco mais de dois meses e meio que parte do povo chileno tem tomado as ruas, quase que diariamente, e tem confrontado o Estado - leia-se a polícia. Piñera já aprovou um pacote com diversas medidas, mas que para o povo soou mais uma vez como migalhas jogadas aos pombos para que se distraiam. Chadwick foi substituído. Piñera convocou, para abril de 2020, um plebiscito sobre a nova Constituição. Mas os ânimos não se acalmam. 

  Independentemente dos pequenos movimentos por parte do governo, que não parecem nem chegar próximo de satisfazer as necessidades do povo, os direitos humanos seguem sendo violados e o povo massacrado. Até o presente momento, o INDH (Instituto Nacional de Derechos Humanos) registrou 359 lesões oculares, dentre elas perdas parciais ou totais da visão e até perdas do globo ocular. Isso se deve a tiros de balas de borracha, gás lacrimogêneo e também os chamados 'perdigones' (munições de calibre 12 que contêm uma porção de pequenas balas de borracha que podem penetrar fundo na pele). Comparando a população do Chile (17,5 milhões de habitantes), com à brasileira (210 milhões), seria como termos 4308 pessoas com traumas oculares provocados pelas forças do Estado. Pelos números oficiais, ao menos 29 pessoas morreram. Fazendo novamente um comparativo das populações, seria como termos 276 mortos em manifestações no Brasil. A luta do povo chileno segue e esse trabalho é um humilde recorte do que presenciei durante três dias, dos 4 primeiros de manifestações.

​© Todos os direitos reservados a Renata Armelin

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